Na sociedade contemporânea, o trauma representa emergência silenciosa de saúde emocional, originado não apenas em acidentes ou tragédias, mas comumente em lares disfuncionais marcados por instabilidade, falha de comunicação afetiva, criticas constantes, conflitos frequentes e ausência de validação de sentimentos, ambientes tóxicos prejudiciais ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. As emoções inerentes à sobrevivência humana são sinais de reação às experiências vividas e embora sentimento e emoção sejam sinônimos na linguagem do dia a dia a ciência os diferencia. A emoção, automática, imediata, rápida e universal é como se o corpo estivesse falando, respondendo de maneira fisiológica a um determinado estímulo. Já o sentimento, consciente, duradouro e pessoal é a mente interpretando o alarme, quando o córtex cerebral identifica a emoção bruta e a decifra. Assim o medo pode se transformar em insegurança, a raiva em mágoa, a tristeza em depressão. Duas pessoas com medo do mesmo cachorro feroz, só uma desenvolve o sentimento de trauma porque associa à mordida na infância. O alarme do medo foi reação de dez segundos, mas o sentimento de fracasso pode tomar conta por anos a fio. Resultados eficazes tendo em vista os avanços da saúde mental trazem esperança à gradual recuperação e têm possibilitado dar sentido à vida prosseguir com mais leveza. “Quando não podemos mais mudar uma situação, somos então desafiados a mudar a nós mesmos”, conforme Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto. “Não importa o que fizeram com você, o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você” (Jean-Paul Sartre). Se as marcas são pesadas demais para carregar sozinho, procurar ajuda não é desistir da força, mas manusear a força na direção certa: a da própria vida! Evitar lembranças pode até dar alívio imediato, mas certamente prolonga o sofrimento e superar o trauma não significa apagar o passado, mas integrá-lo à própria história sem permitir que ele defina o futuro. Por meio do autoconhecimento, do fortalecimento da autoestima e da autoconfiança, torna-se possível sair do “modo sobrevivência”, recuperar a liberdade interior e reencontrar perspectivas após a dor. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas decidir que ele não terá a última palavra, permitindo reascender as cores de cada dia e retomar as rédeas das emoções. *Eustázio Alves Pereira Filho. Psicólogo clínico, escritor, vice-presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos